De molho, na Alemanha

Ninguém me disse que seria fácil. Aliás, a maioria dos meus amigos e conhecidos ficava um tanto desconfortável quando eu comecava a contar tão despretensiosamente sobre a viagem para cá: “Mas tu não está preocupada? Por que está tão calma? Nem um pouco nervosa? Não deverias estar mais empolgada?”. Confesso que nos últimos dias antes de embarcar fiquei meio estranha sim. Tive aquela dorzinha de barriga de nervoso e algumas tonturas. Estava comecando a me empolgar, mas ainda sem nocão do que poderia acontecer na sequencia.

Dia 19 completei um mes de Europa. Nem senti. Na verdade, se paro um pouco para pensar, parece que já estou há bem mais tempo aqui. Talvez um ano. Ou dois. A gente acaba se mexendo mais quando está fora de casa, descobrindo coisas que não sabia da existencia e conhecendo pessoas novas todos os dias. Ih, e isso foi o que eu mais fiz: achar pessoas que estavam escondidinhas nesse canto do mundo e viver um pouco da vida delas. Sim, porque não tem graca conhecer desconhecidos se não levamos conosco um pedacinho deles. Para sempre.

Enfim, isso tudo comecou comigo dizendo que “não seria fácil”. E não é. Na verdade, não posso dizer que é difícil ou sofrível – isso, com certeza, nem um pouco. Creio que “perigoso” tende como o melhor adjetivo a utilizar nesse caso. E “perigoso” não no sentido de que “coisas ruins acontecerão” ou que “deve-se tomar cuidado e/ou precaucões”. “Perigoso” porque nunca se sabe o que vai suceder.

Alguns acidentes de percursos fizeram-me perceber como somos dependendentes de pequenas coisas, como de um joelho, por exemplo. Apesar de compreender isso rapidamente, não está sendo fácil me adaptar a utilizar somente a perna esquerda. Aliás, percebi que a Alemanha não é o melhor lugar para um deficiente físico. Alguns trechos em algumas linhas do metro não são adaptadas. Nao há elevadores em Stadmitte se a pessoa quiser pegar o U6 e chegar em Kochstrasse como eu faco todos os dias. Tenho que descer degraus. Um a um. As calcadas são extremamente escorregadias – em especial, com a neve – para quem utiliza bengalas ou muletas. O pavimento podia ser melhor nesse sentido. O elevador do prédio do meu trabalho não chega ao térreo. Tenho que subir dois lances ENORMES de escadas para acessá-lo.

Ainda não posso dizer que os ligamentos do meu joelho direito estão 80% – o médico disse que 100% vai demorar um bocado, tipo “nunca mais”. A rótula dói também. Pelo menos estou tomando medicamentos fortes o suficiente para faze-lo desinchar e doer menos. Pelo menos aprendi a explicar meu problema em espanhol – “la rodilla fudida” (com o perdão do termo) – e alemão: “Ich habe mein Knieband gezerrt”.

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