Pitacos entre Porto Alegre e Berlim

Ontem Porto Alegre, a cidade onde nasci, completou 241 anos. Berlim assoprará 776 velinhas em agosto. Quando paro um pouco para pensar sobre isso, a primeira coisa que vem à minha cabeca é: vou viver apenas 80 anos. Tudo bem, talvez eu viva mais do que oito décadas, mas, enfim, 80 é uma média. A partir disso, nasce a pulga trás da orelha: onde vou querer passar os meus preciosos aninhos de vida? Tomando esse fato, comecei a fazer algumas comparacoes superficiais entre as duas cidades a partir das últimas notícias publicadas pela mídia gaúcha. Alguns podem dizer que, quanto mais velha a cidade, mais evoluída. Será mesmo? Depende do tipo de evolucão que se espera. Depende do tipo de estilo de vida que se quer para si, que admiramos.

A passagem de onibus aumentou para R$ 3,05 em Porto Alegre. A lotacão, que utilizo não por opcão, mas porque não existem onibus da minha casa para o centro, subiu para R$ 4,50. Gasto cerca de R$ 200 por mes, somente para ir de casa ao trabalho. Se quero ir ao cinema depois do expediente, por exemplo, preciso tomar onibus ou lotacão até lá, e depois pegar outro para casa – ou bancar um táxi porque vai ficar tarde e perigoso. Em Berlin, o Monates Karte (ticket mensal) custa 77 euros, que, adivinha (!), valem R$ 200. Só que com esse bilhete dá para andar a vontade de metro (U-Bahn), trem (S-Bahn), tram e onibus pela cidade. Se eu percorrer nove trechos em um dia, em horários diferentes, ou apenas ir e voltar do trabalho, dá na mesma. Aliás, outra grande coisa é que todos os dias após às 20h, o portador de um Monates Karte pode “levar um amigo junto” no transporte gratuitamente. Vale para os finais de semana também. Estudantes e idosos para um valor menor por esse bilhete, cerca de 50 euros.

Não há cobradores no transporte público. Voce entra e valida seu ticket numa máquina. Se tiver o mensal, faz nada. Apenas guarda consigo, caso apareca um fiscal. Ontem, por acaso, eu estava no metro quando vi fiscalizacao pela primeira vez. Tres homens entraram no vagao que eu estava, com roupas civis, mostraram os crachás e pediram para as pessoas apresentarem os bilhetes. A multa para quem não o tem é 40 euros. E não é o tipo de multa que estrangeiro não paga nunca mais. Já ouvi relatos de pessoas que foram cobradas quando retornaram a seus países ou que tiveram problemas no aeroporto ao deixar a Alemanha. Tem que pagar, não tem cao. Os fiscais de ontem nem olharam meu bilhete. Segundo minha flatmate, tenho cara de gente honesta 😛

Esses dias a noite estava voltando para casa quando um menino, de cerca de 15 anos, me parou. Ele pediu 2,40 euros. Disse por favor. Juro que eu não tinha. Se tivesse, dava. Eu expliquei a ele que tinha somente uma nota de 20 e perguntei para que ele queria o dinheiro. Ele respondeu: “Para pagar o tram”. O bilhete para viagem única custa 2,4 euros. Se forem só quatro estacões, paga-se 1,4 euros. Repliquei ao menino: “Mas pega o tram sem pagar, não tem fiscal a essa hora”. Aprendi uma licao aquela noite, quando o ele falou: “Tudo bem, vou pedir para outra pessoa, obrigado”. Os alemães sempre querem pagar. Se está escrito que tem que pagar, não importa se há ou não fiscalizacão. Não existe a ideia de “tirar vantagem” para si. Isso se chama honestidade com a coisa pública.

Outra discussão que ma parece recente em Porto Alegre é quanto o lugar reservado a idosos, gestantes e deficientes no transporte público. Isso não existe aqui. Isso mesmo: non ecziste! Claro que sempre tem alguma pessoa solidária que cede o lugar para os velhinhos, alguém com muletas ou grávidas. No entanto, não é, digamos, uma coisa comum. Experiencia própria: eu ando mancando para lá e para cá todos os dias, com protecão no joelho (dá para ver nitidamente que estou com problemas) e ninguém, nunca, me ofereceu o lugar. Creio que as pessoas me olham e pensam: ela aguenta em pé. E pior que não há grandes problemas mesmo. Nada de freadas bruscas ou ultrapassagens perigosas por aqui. É confortável andar de transporte público, mesmo quando lotado, mesmo em pé.

Além dos idosos não terem preferencia no transporte, não vejo filas especiais para pessoas mais velhas. Tudo parte do bom senso dos demais, mas, geralmente, os velhinhos-gestantes-deficientes esperam o mesmo tempo que um jovem no caixa do banco, do supermercado ou para entrar no elevador. Talvez alguém diga que isso “é porque tem muito velho aqui”, o que eu acho uma inverdade. Tem mais idosos na Europa do que na América Latina, porém acho que nossa populacão nessa faixa etária também está a crescer.

Tudo é muito silencioso, especialmente de manhã. Seja nas ruas, nos cafés ou no metro. Meus colegas alemães dizem que as pessoas “hibernam mentalmente” durante os meses frios e só despertam para a vida quando o verão comeca a aparecer. Quase ninguém sorri às 8h da manhã quando o vento gelado corta o rosto enquanto se aguarda o tram chegar. Mas ninguém sorri também ao meio-dia, quando alguns filetes de sol teimam em tocar o chão. Ninguém sorri, mas todo muito le. E como! Sempre vejo gente com livros ou lendo livros em tablets no transporte público. Muita gente ainda compra jornal impresso, apesar de o setor dizer que há uma crise de leitura. Os alemães estão sempre bem informados, sabem tudo, falam sobre tudo. Talvez no Brasil ocorra o contrário: falamos demais, pensamos de menos. Não que isso seja mau, é apenas o estilo no qual a sociedade se desenvolveu. Mas, sinceramente, acho que as pessoas deveriam ler mais. Até para escreverem melhor.

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