Tag Archives: Alemanha

Herr Steffen Seibert

Ele já foi ancora de um dos principais telejornais da Alemanha, mas hoje diz que está super contente e honrado em ocupar o cargo de porta-voz do governo de Angela Merkel. Há algumas semanas, conheci o vice-diretor da editoria de Política de um dos maiores jornais alemães. Ele me aconselhou: “Antes de falar com Steffen Seibert, dá uma olhada numa foto dele de uns tres anos atrás”. Segundo esse jornalista, eu poderia notar o quão “acabadaco” (desculpa pela falta de cedilhas!) Seibert está.

Apesar dos 52 anos, Seibert está mais para quarentão elegante. Aliás, creio que todas as pessoas na Alemanha aparentam ter em média uma década a menos da idade que realmente tem. A justificativa mais plausível que ouvi foi: “Quando se coloca carne numa geladeira, ela não fica velha”. Faz sentido.

Enfim, estava tentando essa entrevista há semanas. Uma colega chilena que intermediou o contato e conseguiu os minutos tão aguardados. Seriam 30, mas a conferencia da qual participou antes durou mais do que o previsto. Seibert concedeu 15 minutos.

Eu, uma colega chilena, outra brasileira e uma boliviana sentamos em uma mesinha do café da Bundespressekonferenz com Seibert. Fizemos uma breve apresentacão sobre quem éramos: “Jornalistas latino-americanas que participam de um programa chamado IJP”. Ele sorriu enquanto dizia “o que voces querem saber?”. Antes de comecarmos as perguntas, certificou-se: “Isso é apenas uma conversa, certo? Não é entrevista, certo?”. Ou seja, tudo em off.

O papo foi em ingles. Ele comecou perguntando se entendemos alguma coisa do que falaram na conferencia, que durou cerca de uma hora e da qual também participamos. Ele fez um breve resumo de 30 segundos, dizendo que falaram sobre impostos e crise europeia. Seibert respondeu todas as nossas perguntas sem pestanejar. Não “se fez” ou foi vago, apenas certeiro e pontual.

Ele comentou sobre a relacão de Dilma Rousseff com Angela Merkel. Falou sobre as eleicões de setembro, justificou algumas posturas da chanceler e comentou algo sobre o novo partido fundado na Alemanha em meados desse mes, o Alternative für Deutschland (AfD). Apesar de não poder publicar nossa conversa, tive a certeza que estou cada vez mais por dentro da política alemã. Aliás, Seibert perguntou qual de nós escrevia sobre Política, e eu fui logo respondendo: “Eu escrevo SOMENTE sobre política”. Foi depois disso que ele falou sobre Dilma e Merkel.

O saldo da pseudo-entrevista – e de outras tantas convsersas que tive com alguns membros do governo e jornalistas alemães de política – renderam muitas linhas numa matéria sobre a chanceler e as eleicões de setembro. Apesar de estarmos apenas esbarrando em maio, desde que os principais partidos alemães definiram seus candidatos à Chanceleria, no final do ano passado, o debate já comecou. Pelo menos, na mídia.

Seibert na conferencia que comeu 15 minutos do nosso encontro

Seibert na conferencia que comeu 15 minutos do nosso encontro

Advertisements

1 Comment

Filed under Durante

Aqui na Alemanha…

… tratam-se os cachorros como gente. Eles entram em supermercados, lojas de roupas, restaurantes e no transporte público. Não necessariamente usam coleiras, mas sabem muito bem como se comportar em qualquer um desses lugares.

… cerveja é considerada alimento. E o pior é que alimenta mesma. Qualquer cerveja alemão, por mais vagabunda e barata que seja, faz com que as cervejas brasileiras se parecam mais com água suja com cevada engarrafada.

… o transporte público nunca atrasa. O máximo que me ocorreu foi o metro travar por dez minutos porque algum problema ocorreu na linha. É comum que os trams (bondes) cheguem um ou dois minutos antes do horário que deveriam.

… pedestre espera o sinal verde para cruzar mesmo que não venham carros. À noite, até há gente que atravessa a rua com sinal vermelho, mas não é uma coisa muito comum. Se há criancas esperando na calcada para cruzar a rua, ninguém se atrave a dar um passo para frente antes que a sinaleira permita.

… há faixas de pedestres retas e na diagonal, para cortar caminho ao atravessar.

… sempre dão troco. Mesmo que seja 1 centimo.

… há pelo menos quatro tipos de lixeira, e espera-se que todos separem o lixo dessa maneira: Plástico, papel, vidro e organico. Já vi lixeiras que separam vidros e plásticos por cor (verde, transparente, preto, etc e etc). Às vezes tem diferenciacão para papel e papelão também.

… se voce compra um produto numa loja e depois se arrepende, não tem problema. Volta lá que te devolvem o dinheiro ou extornam do cartão. Nada de pegar vale-compra para trocar na mesma loja. O dinheiro é seu, voce não quer o produto, te devolvem. Simples assim. Aliás, isso não ocorre só na Alemanha, mas na Europa toda. Aqui consumidor realmente tem direitos.

… pelo menos 50% das pessoas que estão no metro/tram/s-bahn estão lendo. Livros, revistas ou jornais. Alguns usam tablets para ler.

… não existem assentos ou filas especiais para idosos ou gestantes. E não é comum as pessoas cederem seu lugar. Esperam na mesma, como os demais.

… é impossível trocar uma nota de 500 euros. Até no banco negam. Tem várias lojas que já avisam em placas que “não tem troco para 500”. O único jeito (descobri recentemente) é comprar alguma coisa na Zara. Lá eles trocam 🙂

… se voce está na rua com problemas, perdida ou buscando informacão, chega em alguém e pergunta. Ninguém nunca vai parar para te ajudar “do nada”. Tem que pedir, sempre.

… a maioria dos alemães considera que escovar os dentes mais de uma vez por dia faz mal.

… os alemães são sempre pontuais.

… os alemães “rapam” o prato por maior que ele seja.

… mulheres e homens arrotam em público.

… é melhor assoar seu nariz mesmo em público do que ficar “fungando”. Alemães odeiam pessoas que fungam. Assoa o nariz logo, por mais constrangedor que isso pareca ser.

… as pessoas necessariamente não foram filas. Todos sabem quem chegou antes, então não precisam ficar um atrás do outro. É uma coisa meio óbvia e funciona super bem. Claro, todos respeitam.

… a rua é tratada como parte da casa. É normal deitar na calcada, fazer topless no parque ou pique-nique em qualquer pedaco de grama.

Leave a comment

Filed under Durante

Johannes

Essa história comecou em 2005, quando eu ainda estudava jornalismo na PUCRS e decidi cursar uma disciplina eletiva de Portugues, da qual não me recordo o nome. No primeiro – ou talvez no segundo dia de aula – a professora mencionou que tínhamos um intercambista estrangeiro na classe. Disse que ele era alemão. Eu, com meus dois anos de estudo da língua alemã, decidi trocar algumas palavras com ele, Johannes. Conversamos um bocado naquele dia, depois nos encontramos em outros. Até no show da Avril Lavigne fomos juntos. A então namorada Suzanne foi o visitar em Porto Alegre, e eu fiz um mini-tour pelo centro histórico da capital gaúcha. Ficamos amigos. E, para mim, amigo de verdade é amigo para sempre.

Depois de 2005 nunca mais nos vimos pessoalmente. Trocamos e-mail relatando as novidades e nos falamos seguidamente no Skype. Eu fui morar em Portugal em 2009, mas acabei nunca vindo a Alemanha visitá-lo. Johannes casou com a Suzanne e teve uma filha linda, a Luisa Marie. Uma vez, em 2010, ele foi ao Porto, Portugal, cidade onde vivia. Eu estava no Brasil de férias. Um ano depois, ele foi ao Rio Grande do Sul a trabalho. Eu não estava lá. Isso, no entanto, não impediu que ele passasse uns dias na minha casa, com meus pais.

Finalmente, depois de sete anos, nos reencontramos. E pareceu que a gente nunca deixou de se ver. Foi como uma visita de velhos amigos que se veem todos os dias – ou todas as semanas. Johannes está igual. Até rejuvenesceu uns anos. Diz ele que é por conta da Luisa, que só lhe dá alegria. Quem se sentiu mais velha fui eu. Afinal, eu tinha apenas 18 anos quando me auto-apresentei em um dia qualquer de aula na universidade.

Ele sempre me disse que morava em Eppingen, uma cidadezinha de cerca de dez mil habitantes no sudoeste alemão. Mentiu. Ele vive em Kleingartach, povoado que pertence a Eppingen, com 1.800 habitantes. O verdadeiro paraíso germanico no interior. A cidadezinha comemora 1.225 anos em 2013 (isso mesmo, mil duzentos e vinte e cinco!). Tem ruazinhas estreitas cheias de casas pequeninas. Ruas limpas. Tudo verde. Pequenos arroios de água transparente. É cercada de montanhas com parreiras de uvas. Os habitantes bebem vinho e espumante proveniente do entorno do vilarejo.

1.225 anos é 2,5 vezes mais idade que o Brasil

1.225 anos é 2,5 vezes mais idade que o Brasil

Quem fica parado em uma rua de Kleingartach por cinco minutos, passará cinco minutos sem ouvir nada. Silencio absoluto. Alguns pássaros até emitem tímidos ruídos. Alguns meninos passam de skate e patinete – ou brincam com carrinhos controlados por controle remoto. Todos cumprimentam todos.

Mas não se engane: Kleingartach fica na Alemanha, ou seja, tem uma auto-bahn sem controle de velocidade logo ali do lado. Todos tem internet em casa. Até mesmo as meninas que passaram cavalgando em um dos dias que estive lá – montadas em um daqueles cavalos marrom-claro de contos de fada – devem ter um iPhone no bolso. Kleingartach conserva a beleza do interior escondendo a modernidade que cerca a Alemanha por todos os lados.

Lá embaixo fica Kleingartach. Montanhas ao redor cheias de parreiras

Lá embaixo fica Kleingartach. Montanhas ao redor cheias de parreiras

Minha viagem até lá comecou na Sexta-feira Santa. Cerca de seis horas de onibus por 99 euros ida e volta. Teria sido bom ir de trem, se não fosse tão caro: 240 euros! Desde o início de 2013, empresas privadas de onibus podem oferecer servico de transporte entre cidades. Antes de janeiro, conforme uma lei do III Reich, não podia. Havia somente trens, todos da empresa estatal Deutsch Bahn (DB). Com isso, a concorrencia faz a coisa pegar fogo, e os precos baixam.

Viajei pela MeinFernbus. O onibus é pontual. Oito horas EM PONTO partiu da estacão central de onibus de Berlin. Um dos motoristas – porque tem dois que revezam as seis horas de direcão – conferiu meu nome em um mini-Ipad. Logo após ele dar o ok, recebi um e-mail de boa viagem da empresa. Não há lugares marcados. Voce entra e pergunta: “Ist das Frei?” Se o banco estiver livre, senta. Seguimos viagem por uma Autobahn, que na Alemanha não tem limite de velocidade. Ou seja, se o seu carro aguentar 200km/h, pisa fundo e vai. O onibus seguiu numa média de 80km/h. Há internet grátis no onibus. O mais legal é quando passa pelos tuneis, que tem cerca de 3 km de extensão. Melhor do que implodir montanhas para construir estradas.

Um dos motoristas faz as vezes de bus-moco, explicando as regras da viagem: "Não pode fazer o número 2 no banheiro"

Um dos motoristas faz as vezes de bus-moco, explicando as regras da viagem: “Não pode fazer o número 2 no banheiro”

No sábado, eu, a família do Johannes, uma outra família de amigos e um estudante da Tunísia, que estava hospedado na casa dele por duas semanas, fomos visitar Heidelberg, uma cidade comparável a Gramado. Tem um castelo, ruas estreitas com comércio internacional, barraquinhas que vendem souvenirs.

A rua central de Heidelberg

A rua central de Heidelberg

Subimos até o castelo de funicular, custa 4 euros. É possível ir caminhando também – se voce não tiver rompido os ligamentos do joelho 😛 Comi o que, segundo o amigo do Johannes, o Olli, é o melhor sorvete da cidade. Para os padrões alemães, é uma cidade cara. Comparada a Gramado, Heidelberg é ridiculamente barata – mesmo multiplicando os precos em euros por tres!

O melhor sorvete da minha fruta favorita: Johannisbeeren

O melhor sorvete da minha fruta favorita: Johannisbeeren

1 Comment

Filed under Durante

De molho, na Alemanha

Ninguém me disse que seria fácil. Aliás, a maioria dos meus amigos e conhecidos ficava um tanto desconfortável quando eu comecava a contar tão despretensiosamente sobre a viagem para cá: “Mas tu não está preocupada? Por que está tão calma? Nem um pouco nervosa? Não deverias estar mais empolgada?”. Confesso que nos últimos dias antes de embarcar fiquei meio estranha sim. Tive aquela dorzinha de barriga de nervoso e algumas tonturas. Estava comecando a me empolgar, mas ainda sem nocão do que poderia acontecer na sequencia.

Dia 19 completei um mes de Europa. Nem senti. Na verdade, se paro um pouco para pensar, parece que já estou há bem mais tempo aqui. Talvez um ano. Ou dois. A gente acaba se mexendo mais quando está fora de casa, descobrindo coisas que não sabia da existencia e conhecendo pessoas novas todos os dias. Ih, e isso foi o que eu mais fiz: achar pessoas que estavam escondidinhas nesse canto do mundo e viver um pouco da vida delas. Sim, porque não tem graca conhecer desconhecidos se não levamos conosco um pedacinho deles. Para sempre.

Enfim, isso tudo comecou comigo dizendo que “não seria fácil”. E não é. Na verdade, não posso dizer que é difícil ou sofrível – isso, com certeza, nem um pouco. Creio que “perigoso” tende como o melhor adjetivo a utilizar nesse caso. E “perigoso” não no sentido de que “coisas ruins acontecerão” ou que “deve-se tomar cuidado e/ou precaucões”. “Perigoso” porque nunca se sabe o que vai suceder.

Alguns acidentes de percursos fizeram-me perceber como somos dependendentes de pequenas coisas, como de um joelho, por exemplo. Apesar de compreender isso rapidamente, não está sendo fácil me adaptar a utilizar somente a perna esquerda. Aliás, percebi que a Alemanha não é o melhor lugar para um deficiente físico. Alguns trechos em algumas linhas do metro não são adaptadas. Nao há elevadores em Stadmitte se a pessoa quiser pegar o U6 e chegar em Kochstrasse como eu faco todos os dias. Tenho que descer degraus. Um a um. As calcadas são extremamente escorregadias – em especial, com a neve – para quem utiliza bengalas ou muletas. O pavimento podia ser melhor nesse sentido. O elevador do prédio do meu trabalho não chega ao térreo. Tenho que subir dois lances ENORMES de escadas para acessá-lo.

Ainda não posso dizer que os ligamentos do meu joelho direito estão 80% – o médico disse que 100% vai demorar um bocado, tipo “nunca mais”. A rótula dói também. Pelo menos estou tomando medicamentos fortes o suficiente para faze-lo desinchar e doer menos. Pelo menos aprendi a explicar meu problema em espanhol – “la rodilla fudida” (com o perdão do termo) – e alemão: “Ich habe mein Knieband gezerrt”.

Leave a comment

Filed under Depois

Os perigos da Alemanha

Certamente a Alemanha é um dos países mais seguros do mundo. Parte dessa sensacão de seguranca acaba por ser emanada das pessoas que vivem aqui. Os alemães – e aqui me atrevo a dizer “os berlinenses”, porque em Berlin vive um bocado de estrangeiros que incorporaram o estilo local – nunca deixariam de pagar o bilhete do metro só porque não há fiscalizacão. Um casaco pode ficar escorado por horas no banco de um bar que ninguém o pegará. É possível, de dia ou à noite, andar na rua sem estar agarrado à bolsa. Ninguém vai tirar do lugar algo que não lhe pertence. Isso tem a ver com um sentimento individualista, mas também – e, talvez, principalmente – do entendimento do que é público: aquilo que não pertence só a um, mas a todos e a ninguém, ao mesmo tempo.

Apesar da seguranca quanto às pessoas, há coisas na Alemanha que tendem a ser perigosas, especialmente para alguém que não está acostumado com a dinamica de uma terra tão diferente. Parte dessas coisas tem a ver com o fator climático – que hoje me faz entender porque as pessoas quase não sorriem quando está frio. Outro segmento está associado com a flexibilidade e equilíbrio corporal – e não venham me dizer que todas as carcaças humanas são iguais!

1. Neve

Caminhar na rua enquanto a neve está acumulada é fácil. Aquele gelinho branquinho ainda está fofo, deixando o pé afundar o suficiente para ter a estabilidade necessária e manter o corpo ereto. O problema é quando pára de nevar, a acumulacão fica escassa – em especial, onde pessoas e transportes trafegam – e o que era fofo trona-se escorregadio. O gelo é traicoeiro – e os hematomas espalhados pelo meu corpo podem provar isso. O gelo é sujo: não há maneira de manter água congelada límpida por onde todos pisam e carros passam.

2. Escadas

A anotomia das escadas alemãs devem combinar perfeitamente com quem nasceu aqui. Os degraus são mais altos e um pouco mais largos. Para um alemão, é fácil subir ou descer escadas correndo – até porque, andam rápido e parecem sempre com pressa. São poucas as escadas onde há uma espécie de lixa na ponta para segurar os mais desequilibrados. A combinacão de escadas e neve fica ainda mais perigosa, considerando também que as rolantes externas ficam desligadas se o tempo não está bom.

3. Telhados

Tudo sempre comeca com a neve. Ela se acumula nos telhados e nas sacadas dos prédios. Quando chega a hora de limpar, a melhor maneira para fazer isso é jogá-la para baixo. O que caiu do céu como floco, despenca na calcada em forma de gelo. Verdadeiras pedras que machucam de verdade. Se o sol aparece, inicia um festival de precipitacão artifical que atinge transeuntes.

Leave a comment

Filed under Durante