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Erster Mai em Berlin

Primeiro de Maio em Berlin é dia de ir à rua protestar. Mas nem todos saem de casa com esse pretexto: a maioria só quer curtir a festa. Nossa, e que festa! Milhares de pessoas se reuniram em Kreuzberg ontem para a chamada My Fest (quando se le o nome da festa, percebe-se o trocadilho do “my” com o mes de maio: “May”). Kreuzberg é o distrito berlinense onde tradicionalmente ocorrem os protestos do Dia do Trabalho, no entanto, desde 2003, os manifestantes acabam por dividir espaco com aqueles que querem se divertir.

Nunca vi tanto turco vendendo cerveja e kebab. Aliás, acho que é o melhor dia para comer especialidades turcas em Berlin: acha-se de tudo um pouco nas barraquinhas improvisadas na rua. Tem música de todo o tipo, para todos.

Escrevi sobre o Primeiro de Maio na Alemanha para o Correio do Povo. Publicado na edicão de hoje, na página 14.

Correio do Povo, 2 de maio, pg. 14

Correio do Povo, 2 de maio, pg. 14

Fiz ainda algumas fotos que ilustram um pouco do que rolou ontem por aqui…

Multidão no Görlitzer Park, em Kreuzberg. AS árvores ao redor serviam de banheiro...

Multidão no Görlitzer Park, em Kreuzberg. AS árvores ao redor serviam de banheiro…

Um dos sacada's dj (eu que inventei o apelido)

Um dos sacada’s dj (eu que inventei o apelido)

Berlin é considerada a cidade mais suja da Alemanha, mas, ontem, passou dos limites (mas nem é tão suja, Porto Alegre é pior...)

Berlin é considerada a cidade mais suja da Alemanha, mas, ontem, passou dos limites (mas nem é tão suja, Porto Alegre é pior…)

Não curte a música? Coloca o fone e danca

Não curte a música? Coloca o fone e danca

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How to get into Berghain

Experimentar digitar “how to get in” no Google. A primeira sugestão que o buscador te dará será: “How to get into Berghain” ou “How to get in Berghain”. Existem centenas de fóruns discutindo o assunto. Também, não é para menos. A Berghain é considerada a “capital mundial da música eletronica” e, provavelmente, um dos locais mais difícies de se entrar no mundo.

Eu já havia tentado entrar uma vez. Fui barrada. A questão não é ser bonita, chic, rica, hipster ou esquisita. Aliás, não há critério. Meia hora na fila da Berghain te faz perceber isso. Me disseram que grupos grandes não entram. Principalmente se for de estrangeiros. A afirmacão caiu por terra quando vi um grupo de cinco suecos entrarem. E eles estavam falando ingles o tempo todo na fila – porque também me disseram que ou voce fica em silencio na fila ou fala somente em alemão.

Chegamos – eu e minha colega de casa, Stefanie – por volta da 1 da manhã à fila da Berghain no sábado. Não estava tão congelante como da última vez que meti por lá. Encaramos tranquilamente cerca de 45 minutos de fila com uma temperatura de 5 ou 8 graus – a última vez que estive lá, encarei meia hora exposta a -12 graus! Fiquei de canto observando que tipo de gente estava sendo barrada: Um trio de meninas bonitas e bem vestidas, grupos grandes de estrangeiros (creio que odeiam espanhois por ali), casais sem nenhum defeito ou qualidade em particular, um ou dois caras sozinhos e infinitos grupos de meninas ou meninos com cara de quem só tá turistando. Teve um inglesa que fez um escandalo quando foi barrada. Comecou a gritar: “TELL ME THE REASON AND I WILL WALK AWAY”. O seguranca empurrou-a da porta da Berghain até o final da fila, gritando: “GO, GO, GO. GET OUT”. E ela gritava mais. Não sei o fim da história, pois só vi os dois brutamontes voltando e não ouvi mais a voz da inglesa, que me pareceu muito bonita, estava bem vestida e sozinha, mas foi barrada.

Enfim, como disse a Stefanie: “Everybody can get in, but not eveyone”. E é isso mesmo. Qualquer um entra lá, desde que esteja confiante o suficiente que vai conseguir. Fazer cara de blasè funciona. Sorrir para os brutamontes, também. Eu decidi mascar um chiclete de boca aberta. Falar alemão não é estritamente necessário, pois o cara que estava sozinho na nossa frente não era alemão (dava pra ver de longe) e entrou. O seguranca apenas perguntou: “How old are you?”. Ele disse que tinha 24 e foi convidado a entrar. O seguranca não fala quase nada. Ou aponta para a porta, ou seja, voce está dentro, ou apenas mexe a mão para a esquerda convidando-te a se retirar, ou seja, RAUS!!!

Ficam uns quatro homens grandes cuidando a porta. Um careca que sinaliza teu destino com a mão, outro mais velho com barba e estilo motoqueiro que está sempre sentado em um banco e te olha com cara-de-quem-comeu-e-não-gostou o tempo todo, e mais dois que deixam os VIP’s passar (sim, tem uma outra fila para VIP’s). Eles são grandes, não sorriem e nunca te explicarão porque te barraram. Aliás, recomendo não pedir explicacões. Apenas vá embora e procure outra danceteria para passar a noite.

Berghain: eu entrei :)

Berghain: eu entrei 🙂

Nunca leve camera fotográfica. Não se pode fazer vídeos ou fotos. E eles constumam barrar as pessoas, pois revistam tudo na entrada: Bolsas, casacos, cintura, bolsos, mochilas, etc e etc. Aliás, nem tente fazer fotos, pois, aparentemente, não há segurancas lá dentro, mas, de certo, se misturam às pessoas da festa e voce nunca saberá quem são. Não me pediram identidade ou qualquer documento. Menor de 18 não entra, mas não devem conferir todos. À Stefanie perguntaram se era maior de 18. Ela disse: “Tenho 29 anos”. A mulher do caixa apenas riu: “Desculpa”. Na verdade, me soou mais como elogiu. Fiquei até com inveja. Devem ter me achado com cara de acabada…

Pagamos 14 euros para entrar, após, obviamente, sermos escolhidas. A última vez que estive lá custava 12, mas era uma sexta, dia com menos movimento – nesse dia tomei um “RAUS”. A festa comeca na sexta a noite e só termina no domingo. Há pessoas que passam o final de semana na Berghain: Há um bar que vende comida, café, tortas e até sorvete. Há outros inúmeros bares onde se compra bebida alcoólica. Os precos são normais, nada diferente das demais danceterias berlinenses. Ficamos cerca de duas horas por lá, apenas pela experiencia.

O prédio me pareceu uma fábrica antiga – e provavelmente é. Logo que se passa da porta de entrada, há uma salinha à direita onde revistam todos e voce compra o ingresso. Carimbam sua mão. Daí voce saí por outra porta da salinha, mostra o carimbo para um brutamontes e entra por uma cortina de plástico recortado. Ali, naquele primeiro salão, fica a lojinha da Berghain (para quem quiser compra uma camiseta da danceteria, por exemplo) e o Garderobe (local para guardar os casacos, como chama isso em portugues mesmo?). Enfim, custa 1,5 euro por pessoa para colocar as coisas ali.

Foto proibida: o primeiro andar da Berghain, onde guardam-se os casacos

Foto proibida: o primeiro andar da Berghain, onde guardam-se os casacos

Subindo a primeira escada, há o salão principal. Música boa, no último volume, tipo ensudercedor. Eu me senti um pouco drogada ficando ali, porque as luzes, a fumaca e um cheiro doce no ar – além da música e da galera gritando – criam uma atmosfera que nunca vi em nenhum outro lugar. Há dois segundos andares. Em um fica o bar dos comes-e-bebes para quem vai extender a noite por 48 horas ali. No outro, tem uma pista de danca com música mais calma – se é que isso existe na Berghain hehe

Há inúmeros locais escuros, escondidinhos, propícios para as pessoas fazerem o que bem entenderem. Já tinham me falado que alguns decidiam chegar aos finalmentes ali mesmo e, bem, é verdade. Vi um casal, digamos, fazendo coisas. Também tinham pessoas praticamente sem roupa, uma menina dancando de sutiã, gente pedindo para ser tocada, enfim, muita informacão para um mesmo lugar. Por outro lado, vi casais comportados, dezenas de “patricinhas”, caras bonitos pulando junto com a música, gente divertida querendo conversar. Acho que a cabeca fica um tanto cansada lá dentro, pois é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e tu quer prestar atencão em tudo, enfim. Duas horas foi o suficiente para mim, já que me acabei por uma hora na pista principal e depois tirei uma sonequinha nos sofás-quase-camas que fica em uma espécie de mezanino, tipo um terceiro andar.

Certamente não circulei por todos os cantos do lugar, até porque, nunca se sabe o que se encontrará pela frente, então achei melhor ficarmos onde todo mundo estava. Infelizmente não tenho uma dica específica do tipo “para entrar na Berghain voce precisa fazer isso”. Ouvi teorias de dezenas de pessoas sobre como entrar lá antes de ir. Disseram para eu me vestir mais alternativa e não usar meus brincos de perólas. Olha, lamento, mas eu coloquei a roupa que eu quis e fui com brincos de menininha e rolou. Minha amiga estava, inclusive, de salto alto – tinham me dito também para usar botinas. A única certeza que tenho é que todos que passam por Berlin deveriam tentar a fila da Berghain, nem que seja para ser barrado. Vale a experiencia.

Quando saí, às 4h45, a fila estava maior do que quando entrei às 2h

Quando saí, às 4h45, a fila estava maior do que quando entrei às 2h

Servico:

BERGHAIN / PANORAMA BAR
Am Wriezener Bahnhof
10243 Berlin
Einlaß ab 18 Jahre!

#ficadica: Vá de táxi. Creio que as estacões de metro são um pouco longe (cerca de 20 minutos caminhando), fora que, se voce for barrado, volta de bus ou metro para casa: A caminhada vai fazer bem para esfriar a cabeca 😛

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München

O cheiro de dinheiro ainda está impregnado nas minhas narinas. Mesmo tendo voltado de München no domingo, o olor é tão forte – assim como as impressões que tive da cidade – que devo ficar mais alguns dias nessa overdose. München é intensamente calma. Se fosse possível descrever o paraíso (aquele para onde os bons vão depois que morrem), certamente pareceria-se com München. As pessoas aparentam não ter preocupacões: quando se vive numa cidade cara, mas onde ganha-se extremamente bem, deve ser essa a sensacão que se tem. Encontrar carros velhos, gastos ou extremamente antigos na rua é um desafio. Está todo mundo bem vestido e comportado. Os alemães de München sorriem e fazem amizade facilmente. Perdi a conta com quantos donos de cachorros fiz amizade em restaurantes (na Alemanha, tratam-se os cachorros como gente, e eles frequentam os mesmos lugares que nós, com os mesmos direitos).

München tem um centro pequenino, apesar de ser uma cidade espalhada. Tem bairros tão chics e caros que o metro quadrado chega a custar o meu salário mensal. Na Maximilianstraße, H&M e Zara dividem espaco com Gucci, Prada e outras marcas que minha cultura popular – ou falta de budget – não permitem pronunciar ou escrever o nome corretamente. A capital da Baviera (Bayer, em alemão, ou Bavaria, em latim) orgulha-se de ser o único estado alemão a ter o mesmo território da época dos reinados. Nunca foi dividido ou desmantelado, para após ser reunificado, como os demais estados do país. No centro de München, localiza-se a Münchner Residenz, palácio da época que haviam reis por aqui. Entrar no local, que é gigantesco e ocupa uma quadra inteira, é como voltar no tempo. Teria me sentido uma princesa, se não estivesse vestindo calcas jeans.

O salão de baile da Residenz

O salão de baile da Residenz

Mesmo ao lado da Residenz fica o local onde Hitler tentou dar seu primeiro golpe de Estado, o Putsch da Cervejaria em 1923. Ele foi preso após a tentativa frustrada de derrubar a República de Weimar e escreveu partes do livro Mein Kampf (Minha Luta) enquanto estava na prisão de Landsberg. Os turistas curtem fotografar no local. Eu achei desnecessário.

Para quem quer fazer festa, basta seguir até o fim da Maximilianstraße, que desenbocará na Maximiliamplatz, O lugar da noite. Tem uma danceteria ao lado da outra, para todos os tipos de gostos e bolsos. Há um bar pequeno chamado Lehnbachs que vale a pena conhecer. A cerveja fica em torno de 3,5 euros, e bebidas brancas por cerca de 6. Na noite que lá fui, o local estava mesmo lotado. Eu e minha amiga fomos para o fundo do bar a procura de qualquer coisa para sentar ou se escorar. Duas meninas, que pareciam modelos da capa da Vogue, perguntaram se não queríamos sentar com elas, pois tinham duas cadeiras vagas na mesa. Achei estranho, pois em Berlin não é uma coisa comum alguém oferecer espaco a um desconhecido. Em München, parece-me, é.

Segundo me informaram, e eu mesma pude verificar no sábado a noite, um clube chamado 089 é o mais popular da cidade. Fica na Maximilianplatz. Nada de música eletronica pesada – um respiro para meus ouvidos cansados do estilo musical berlinense. Para quem preferir outro estilo, basta caminhar um pouco para a direita que há uma danceteria de música eletronica chamada Rote Sonne. À esquerda do 089, está a Pacha.

Para quem quer comer pedacos estranhos de um porco, tipo joelho e cotovelo, recomendo dois restaurantes abarrotados de turistas e super famosos: o Hofbräuhaus e o Augustiner. Sobre o primeiro, li no Foursquare, que se voce vai a München em outro mes que não seja outubro, quando ocorre a Oktober Fest, precisa ir lá para sentir o mesmo clima. De fato, é verdade. Os garcons são mais simpáticos que no Augustiner, e há música típica o tempo todo – com gente balancando os canecos e gritando em alemão. A refeicão com cerveja e gorjeta incluída sai por cerca de 20 euros – mas daí depende também de quantas cervejas voce aguenta beber 😛

A verdadeira sensacão de estar no paraíso baixou em mim no domingo. Dia de sol e pessoas na rua. Calcadas lotadas. Inúmeras bicicletas. Um silencio bom que faz bem aos ouvidos. Fomos fotografar o rio Isar, que cruza a cidade. Construíram cerca de 20 pontes sobre ele. Em uma delas, alguns surfistas pegam onda todos os dias. Isso mesmo, os caras construíram uma espécie de arapuca que faz com que o rio gere ondas e ficam ali, o dia todo, todos os dias, surfando. Algumas pessoas decidiram fazer um churrasco no domingo de sol, no meio de uma das pequenas ilhas que se forma no Isar. Se aquilo não for o paraíso, não imagino o que seja.

Surfando no Isar

Surfando no Isar

Churrasquinho no Isar

Churrasquinho no Isar

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Eu poderia ter morrido

“Tu tem sorte de nao ter morrido”, disse Marina durante nosso jantar, sábado a noite. Eu acabara de a conhecer. Algumas horas antes, trocamos algumas palavras em frente ao Portão de Brandemburgo. Ela me perguntou: “Tu é jornalista?”. Eu disse que sim. Uma meia hora depois, convidei-a para uma lenta volta turística pela cidade, já que ela e a amiga só ficariam mais 24 horas em Berlim. Lenta porque meu joelho não está 100% desde que torci o quatríceps e rompi alguns ligamentos.

Andamos por Berlim até os pés delas ficarem molhados demais para continuarmos. Uma coisa que aprendi por aqui é que as botas sempre devem ser as melhores. A grossura do casaco e do cachecol pouco importa. Se os pés estiverem quentes, dá para enfrentar temperaturas negativas sem pestanejar. Paramos em um restaurante, em Hackescher Markt. Não o escolhemos, entramos rapidamente no primeiro que as duas enxergaram. “Não é só a bota que está molhada, minhas quatro meias também estão”, disse Elisa, a companheira de viagem de Marina.

Já na mesa, pedimos comida e bebida. Para variar, desatei a falar sobre os últimos acontecimentos da minha vida. Entre eles, o joelho. Naquela noite, eu havia pré-combinado uma festa com um amigo alemão. Estava ainda na dúvida sobre ir ou não por causa do “pequeno problema” que me faz mancar diariamente Berlim afora. No entanto, sempre fui daquelas sem tempo ruim: para derrubar minha empolgacão, só uma segunda-feira de alagamentos e umidade a 94% em Porto Alegre. Ponderei por uns momentos e disse: “Vamos na festa, gurias?”. As duas se olharam com aquela cara de quem gostaria de aceitar o convite mas sabe que não deve. “Nós estamos a 40 horas sem banho, dormimos noite passada no trem e queremos visitar o Chechpoint Charlie amanhã cedo”, responderam, não em coro, mas sintonizadas. Ela partiriam para Bremen às 16h de domingo. Aceitei o fora, em especial porque me solidarizei com a parte do banho – se eu fico 24 horas sem lavar meu cabelo, tenho vontade de morrer.

Na sequencia, veio a pergunta, que não foi bem um questionamento, mas um conclusão após ouvir alguns minutos de tagaleramento de minha parte. Por primeiro, Marina disse: “Mas como tu foi fazer isso com o joelho?”. Logo após eu dar um pequeno sorriso de canto de lábio, ela concluiu sozinha: “Tens é sorte de não ter morrido”. Dessa vez, fui eu que fiquei em silencio, martelando a frase na minha cabeca. Percebi que ela tinha razão. O problema no joelho me parece mais um freio para eu me cuidar. Não que eu seja irresponsável ou completamente sem nocão, mas eu sei muito bem que não respeito meus limites – tanto que fiquei 20 dias andando por aí com ligamentos rompidos/doloridos/inflamados. Se existisse um termo para me definir seria lifeholic.

Enfim, fato é que eu fui na tal da festa. Depois do jantar, as acompanhei até a Alexander Platz para tomarem o U-Bahn adequado. Segui para casa sozinha. Com dor de cabeca. Foi a primeira vez que tive isso aqui. Horrível. Creio que culpa do vento. Tomei aspirina, que é a única coisa que consigo comprar sem receita na farmácia, e fui dormir. Descansar das 21h à meia-noite me pareceu uma boa ideia, no entanto, como existe a opcão “soneca” no despertador, meus planos quase naufragaram. Meia-noite e meia acordo com meia hora para estar na porta do lugar. Seria impossível se eu tivesse que arrumar o cabelo, maquiar e escolher roupa por horas. Apenas meti a primeira coisa que vi, seguido de duas pinceladas de preto no olho. Saí de casa.

Congelei meus pés por 40 minutos na fila antes de entrar no Naherholung Sternchen. Tinha neve no chão. Aliás, neve não, gelo. Pensei que nunca mais voltaria a ter circulacão sanguínea nos dedos dos pés, mas, confesso, por nenhum momento passou pela minha cabeca pensamentos como “eu poderia estar dormindo”. Não, eu não posso dormir num sábado a noite em Berlim. Já dormi em alguns, mas isso é algo a ser evitado.

Não encontrei meu amigo. Entrei na festa lá pela 1 e meia. Ele ainda nem tinha chegado. Aliás, enfrentaria a mesma fila que eu para entrar. Como sempre, tive sorte. Encontrei duas amigas na festa. Mais tarde, encontrei outro cara que conheci esses dias em um bar. A parte azarada foi que, apesar da música ser boa, eu fiquei boa parte da noite sentada. Não aguento muito tempo de pé. Tenho que colocar o joelho para cima.

O Naherholung Sternchen é uma espécie de casinha com um porão gigante que fica em Mitte, o “meio” de Berlim. Tem duas pistas de música eletronica, uma mais agitada com gente sacudindo tipo louca, e outra para cristãos – se é que isso existe em um lugar como esse. É permitido fumar. Aliás, fumar qualquer coisa. O preco da bebida é o normal: cerca de 6 euros para uma mistura de vodca, cervejas a 2,5. Os olhos lacrimejam um pouco na pista de danca por causa da fumaca. Aliás, as coisas ficam um bocado nubladas lá dentro, como se uma grande nuvem pairasse sobre o espaco. O lugar parece destruído e mal cuidado, como a maioria das danceterias berlinenses. Paredes mal pintadas, sofás detonados. Apesar disso, os banheiros, como sempre, seguem o padrão alemão: limpinhos e com papel. Todo mundo danca, muito, o tempo todo.

Lá pelas 3 e tal, meu amigo alemão me envia uma mensagem: “Entrei. Onde tu tá?”. Esse tipo de recado sempre resulta em duas pessoas procurando uma pela outra com a certeza que vai resultar em nada. Avisei que estava no bar, mas já não estava mais lá quando ele leu a mensagem. Enviou outra, mais tarde, dizendo que não me viu. Obviamente, não nos encontramos. Deixei a festa às 4h, de táxi. Outro amigo me enviou mensagem no domingo, às 11h da manhã. “Onde tu tá?”, questionou. Eu, em casa, respondi exatamente isso. E ele: “Eu acabei de sair da festa”.

Servico:

Naherholung Sternchen
Berolinastraße 7
10178 Berlin / Mitte
(Ubhf- Schillingstraße hinter Kino International / Rathaus Mitte)

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O dia em que fui barrada no baile

Sexta-feira, dia de noite forte nos quatro cantos de Berlin. Eu e dois amigos brasucas decidimos encarar a fila da Berghain, um dos clubes mais famosinhos da cidade. Para chegar lá, de transporte público, foi um bocado complicado. Primeiro porque o Google mais ou menos nos mentiu onde era, então tivemos que descer na estação do S-Bahn (strasse bahn, o metro que anda “por cima”) e caminhar uns dois quilômetros. Fora o frio, beleza. Eu estava sem salto mesmo.

No caminho, estávamos jogando conversa fora para não morrer de frio, e juvenil lembrou que saiu de casa sem documentos. KEINE AUSWEISE! Isso é um grande problema por aqui, porque quase todos os clubes pedem identidade, passaporte, qualquer coisa que diga qual a sua idade. Enfim, seguimos em frente, pois sabíamos que seria super difícil de entrar, já que aqui eles escolhem as pessoas. Sim, ELES ESCOLHEM AS PESSOAS!

Avistamos o casarão antigo, do estilo “a guerra não acabou” e entramos na fila. Estava cheia de japas, gringos diversos e gente esquisita. Começamos a observar as pessoas, falando português baixinho, para não chamar atenção. Queríamos descobrir que tipo de gente era barrada e quem entrava. Por fim, soubemos da pior forma.

Tinha um anão na nossa frente. Ele estava sozinho. Eu comentei com um dos amigos: “Bah, certeza que o anão vai se fuder!” Que nada, o anão entrou. Chegou a nossa vez. Aliás, antes de nós, uns espanhois tinham sido barrados e ficaram discutindo com os seguranças que tinham mais do que 3×3. Mais gente foi barrada na nossa frente. Aliás, de umas dez ou quinze pessoas na nossa frente, só o anão entrou. Bem, chegou a nossa vez. O segurança se dirigiu a mim: “Zwei?”. E eu disse que não, éramos três, afinal. Ele deu uma olhada na minha cara, olhou os dois que estavam comigo. Por fim, deu uma bizoiada na fila e fez que não com o rosto. Na boa, me senti mal. Enquanto estava na fila, parecia que o Schindler (aquele da lista) estava na ponta escolhendo quem salvaria da câmara de gás. Afinal, morri asfixiada.

Ao invés de ir para casa, seguimos para outra festa, a Matrix. Ela é bem popular entre os estrangeiros, mas os alemães não curtem muito. Para saber o estilo de uma balada por aqui, eu sempre costumo pergunta se toca Black Eyed Peas. Porque, se toca isso, toca até Naldo. Assim também dá pra distinguir as baladas somente eletrônicas, das que tocam “músicas cantadas”. Enfim, a Matrix fica numa estação desativada de metro. Tem uma galera bebendo nos arredores, um lugar sinistro, cheio de becos. Se fosse no Brasil, JAMAIS eu encarava um pico desses.

Na fila da balada, encontramos uns amigos de amigos. Nosso grupo aumentou para sete. Éramos quatro brasucas, uma sueca e dois suíços. A sueca e a suíça foram a frente. O cara pegou a suíça, que se chama Marie, pelo braço e disse algo como “aqui não aceitamos drogados. RAUS!” A menina estava um bocado bêbada, com olhos baixinhos, mas não havia usado drogas, creio eu. Na mesma, eu não entraria ali porque estava sem documentos. O cara da porta, depois de expulsar ela, foi logo gritando: “AUSWEISE, BITTE”. E eu, de qualquer forma, não tinha.

A tentativa número três foi uma balada que fica ali nos arredores, chama-se Watergate. Andamos um quilômetro até lá, o que, para os berlinenses, é perto demais. Enfim, o problema é que tinha uma fila gigante. Além disso, duas pessoas tinham menos de 21 anos, e eu estava sem documento para provar que era mais velha do que isso. VIELEN PROBLEMEN. Desistimos.

Daí o suíço que estava conosco teve a brilhante ideia de nos levar num beco, onde provavelmente havia gente vendendo e usando drogas apesar de eu não ter visto isso. Ele disse que ali havia uma festa, que já havia estado ali. Andamos pela calçada, descemos umas escadinhas e entramos num beco sem saída. Perfeito. Muito bom para quem estava congelando a temperatura negativa às 3 da matina. Enfim, não achamos a festa e demos o fora, pois uns turcos começaram a falar entre eles, eu fiquei espiada, os outros brasucas também, e daí forçamos os gringos a vazarem conosco.

Não satisfeitos, seguimos para o S-Bahn. Descemos em Alexander Platz e acabamos por entrar numa festa chamada Weekend. Eu já sabia que era uma porcaria, pois havia lido sobre na internet. Como não saí de casa para perder a noite, entrei. 12 euros. Facada. Mais 1,5 euros para guardar os casacos. Comprei uma bebida, dei uma volta, a música parecia sempre a mesma coisa. Acho que esqueceram no repeat. Fetsa estranha com gente esquisita entrando de casal no banheiro para fazer sei lá o quê. Dancei uma meia hora, bebi meu Moscow Mule (aquela bebida que eu comentei sobre em outro post de vodca com ginger bier) e larguei fora. Estava frio, eu estava com dor nas costas de caminhar (#fernandavelha) e queria aproveitar meu sábado.

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Alemanha, cheguei!

Ainda tenho carimbada a noite passada na minha mão. Fui a uma danceteria de música eletrônica. Mas eletrônica mesmo, daqueles tunti-tunti que parece que está tocando a mesma coisa a noite inteira. Supostamente a música lá tem um ritmo mais latino. Balela. Não vi nada de latino no requebrado dos alemães. Apesar disso, o pessoal é mesmo muito animado e dança a noite toda. Sem parar. O tempo todo. Muito mais animado do que qualquer brasuca dançando Naldo.

Cheguei por volta do meio-dia de sexta-feira em Berlin, e estava um frio inexplicável. A TAP, para variar, quebrou minha mala. Tenho que telefonar para eles virem pegar ela e consertar (pelo menos aqui tenho essa opção!). Conheci dois portugueses no voo. Na verdade, um português e uma portuguesinha. Me dei conta que, apesar de ter vivido um bom tempo em Portugal, nunca tive contato com crianças, nunca havia prestado atenção na maneira como falam. E, nossa, como falam! E conversam bem, parecem adultos a falar. O sotaque português torna a coisa ainda mais séria, com construções de frase totalmente corretas e sem gírias. 

Creio que Mariana, a miudinha de 7 anos,  e o pai dela, o Bruno, tenham sido os meus melhores companheiros de poltrona de avião até o momento. Eu sempre costumo puxar papo com quem senta ao meu lado. Alguns não dão muita trela. Outros preferem dormir a conversar. Mas, apesar do meu cansaço acumulado dos últimos dias, não dormi no voo de Lisboa a Berlin. Fiquei a tagarelar.

Ao chegar em Berlin e constatar que minha mala estava Kaputt (ou avariada), fui ao balcão reclamar. Para minha surpresa, Mariana e Bruno, que viajavam só com bagagem de mão, estavam a minha espera no portão de desembarque. “A Mariana não queria deixar a amiga, então ficamos a te esperar para irmos juntos ao centro”, disse-me Bruno. Antes disso, a Mariana já tinha me dito algo como “és muito simpática, Fernanda”. Sério, foi a coisa mais linda que eu já ouvi. Ainda mais vindo da boca de uma criança de 7 anos que conversa como gente grande!

O ponto de encontro com a Stefanie, a alemã que está me hospedando, era a Alexander Platz. Mais precisamente a loja Saturn, que fica em um dos cantos e tem uma fachada laranja. Fiquei algum tempo ali, entre a porta e a rua, aproveitando-me do arzinho quente da calefação. Estava a nevar bem fininho. Me pareceu uma boa recepção e eu nem reclamei de ter que carregar uma mala de 27kg, uma mochila de 15kg e outro mais pequenina.

Eu pensava que tinha marcado com a Stefanie às 13h30, e já estava lá na Saturn há alguns minutos. Decidi pedir um celular emprestado para telefonar-lhe. O primeiro alemão que parei já me ajudou. Ligou a ela e perguntou quanto tempo demorava. Ela chegou uns cinco minutos depois.

Seguimos de carro até o apartamento que fica em Prenzlauerberg. Combinamos que nossa língua oficial de comunicação seria o inglês. Pretendo começar a falar somente em alemão em alguns dias, mas, por enquanto, melhor descansar um pouco a cabeça, pois ainda estou um bocado confusa com tanta mudança idiomática em tão pouco tempo. Ao chegar, fui logo tocar na neve acumulada nas calçadas e jardins (até experimentei-a!). Depois, comemos, e eu dormi até-que-enfim!

Lá pelas 22h, começamos a nos arrumar para a festa. A tal da festa com música-latino-eletrônica-que-de-latina-não-tem-nada. 12 euros não consumíveis valem o carimbo de entrada. Paga-se mais 1 euro para deixar “metade do guarda-roupa” na chapelaria, sim né, porque eu estava usando todas as roupas que encontrei pela frente por cima do vestido. Bebemos qualquer coisa com vodca misturada com ginger bier, que me pareceu ser popular por aqui. Se você devolve o copo no bar, ganha 50 cêntimos de volta. Por conta disso, não há garrafas ou copos espalhados pelo chão. Apesar do local ser um tanto antigo e ter ares de underground, é bem limpinho e organizado.

A parte mais engraçada da noite, no entanto, foi a maneira como nos dirigimos a festa. Reservamos um carro em casa por meio de um aplicativo no celular. A app nos informou onde o carro estava estacionado, e fomos até lá. A Stefanie passou a carteira de motorista, que tem um chip, no vidro e as portas abriram. Ela dirigiu até a festa, estacionamos o carro na rua e pronto. 29 centavos por minuto de uso. Detalhe que os bancos são aquecidos. Aliás, outro detalhe que vale ressaltar é que era um Mini. Tão giro (“bonitinho” para os amigos que vão começar a reclamar que eu estou a falar como portuguesa novamente).  Sabe quando teremos coisas assim no Brasil? Depois que eu morrer, certamente.

 

Serviço:

Festsaal Kreuzberg 

Skalitzerstrasse 130

10990 – Berlin

Ingressos a 12 euros, não consumíveis. Bebidas, em média, por 6 euros.

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