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Andando por uma Berlin nevada

Dizer que o transporte público na Alemanha funciona não é novidade. Em Berlin, todos os bairros estão interligados por linhas de metrô, tram e trem de superfície – U-Bahn, tram e S-Bahn. Baixei um aplicativo no celular chamado iFahrinfo que resolveu todos os meus problemas enquanto eu ainda não estava acostumada com tanta informação. Hoje, duas semanas depois de chegar, já posso dizer que domino grande parte do esquema de transportes – provavelmente, nunca ei de saber como chegar a todos os lugares sem mapa, mas isso nem os berlinenses sabem.

Da minha casa, que fica em Prenzlauer Berg, até o meu trabalho, na divisa de Kreuzberg com Mitte, percorro cerca de 4,5 quilômetros. Mesmo pegando um tram até a Alexander Platz e trocando de linha de metrô duas vezes, nunca gastei mais do que 40 minutos até o taz. Isso que eu caminho muito devagar para os padrões alemães. Aqui, todos correm.

O Monates Karte (bilhete mensal do transporte público) custa 77 euros. Com ele, dá pra andar de tudo: metrô, tram e ônibus. Após às 20h de todos os dias, pode-se levar um acompanhante sem que ele tenha que pagar a passagem. Nos finais de semana, ou seja, a partir das 20h de sexta-feira até a meia-noite de domingo, o esquema do acompanhante também vale.

A única coisa que chateia um pouco é se locomover de madrugada nos dias de semana. O transporte funciona somente até a 1h, ou seja, depois disso, táxi. Devem existir ônibus noturnos, mas não tenho essa informação. Só sei que para a minha casa não há. Enfim, o valor inicial duma corrida é 3,40 euros. Geralmente, de Mitte (bairro ao centro de Berlin) até a minha casa, dá uns oito euros. Se a corrida for menor do que dois quilômetros, avisa-se o taxista que trata-se de um trecho curto. Assim, paga-se apenas quatro euritos.

Sábado de madrugada foi engraçado voltar a casa. Eu estava em Mitte, muito próxima da Alexander Platz. Eram 2 da manhã, e o transporte público estava em pleno funcionamento. O problema, no entanto, é que a minha cabeça não estava funcionando tão bem assim. Após um dia inteiro de caminhada visitando algumas coisas por aqui, fui beber no hostel de um amigo português que estava em Berlin. Lá pelas 2h, achei que estava na minha hora de xixi-banho-cama.

Nevava muito. Alguns italianos estavam fazendo guerra de bolas de neve na rua. Entrei no jogo. Confesso que engoli um bocado de neve na brincadeira, mas também sujei alguns deles. Passado o momento playground da noite de temperatura negativa, caminhei até o que parecia ser a minha estação de tram. Nem reparei que o M4 não passava por ali. Era o ponto do M5. Ele chegou, eu entrei. Daí que me dei conta.

Desci na estação seguinte e decidi pegar um táxi. Neve na cabeça, casaco todo branco, pés molhados. Esperei uns dois minutos e desisti: “Vou caminhar”, disse a mim mesma. Olhei no aplicativo, que informou que até a minha casa seriam mais ou menos 2km. Ele me mandou cruzar um parque, que fica a beira da minha casa. Pensei com os miolos que ainda não haviam congelado e achei mais seguro prosseguir pela calçada.

Tudo branco. Ninguém na rua. O único som que eu ouvia era o dos floquinhos tocando o chão. Passei por alguns táxis, que estavam todos ocupados. Afinal, valia a tentativa porque quatro euros a menos não iriam me matar. Fatal seria se eu caísse na rua, por queda de pressão ou por ter me machucado de alguma forma. Não foi o caso 🙂

Segui em frente e comecei a perceber que outras poucas pessoas também estavam encarando uma caminhadinha na neve. Fiquei com medo, final, sou brasileira. Andar na rua de madrugada não faz parte do meu metiê. Todo mundo de casaco escuro e capuz. Um pouco macabro. Depois percebi que eu trajava o mesmo que aqueles gato-pingados. Se fossem brasileiros, também poderiam ter se assustado com a minha presença.

Descartada a passagem pelo meio do parque, andei um pouco mais que o previsto. No trajeto final, decidi inovar: coloquei música alta para espantar a gangrena dos pés. Por aqui, nunca vi pessoas ouvindo música na rua sem fones. No Brasil, está cheio de “dj’s do ônibus”. Até em Portugal tem uns gunas que fazem isso no metro.

Enfim, a bateria do celular acabou na reta final. Não resisti a um bocado de neve que se acumulou por cima de um banquinho. De qualquer forma, tinha sede. Juntei um pouquinho com ambas as mãos e experimentei o picolé de água. Não sei porque sempre caio na tentação de fazer isso.

O parque pelo qual eu deveria ter atravessado #medo

O parque pelo qual eu deveria ter atravessado #medo

Vazio e silecioso

Vazio e silecioso

Tudo branquinho enquanto nenhum carro passa por cima para deixar a neve marrom

Tudo branquinho enquanto nenhum carro passa para deixar a neve marrom

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